Estudos Descobrem
Pistas Sobre a Origem da Homofobia
Por Daniel Goleman para o New York Times, 10 de Julho de 1990
Pesquisadores estão a descobrir que o
aumento das acções hostis contra os homossexuais deve-se mais ao ódio
baseado no medo e no moralismo do que devido à epidemia da SIDA.
Embora as sondagens mostrem que os
americanos estão a começar a aceitar os homens e mulheres homossexuais
e a apoiar a luta pelos seus direitos, tem-se notado um aumento no
preconceito anti-gay desde o início da epidemia. Todavia,
investigadores estão a descobrir que a doença, em vez de criar uma
nova hostilidade, deu aos preconceituosos uma desculpa para pôr em prática
o seu ódio.
Ao estudar a virulência e a tenacidade
dos sentimentos anti-gay, psicólogos estão a descobrir pistas para
fontes mais profundas da homofobia. As novas descobertas confirmam a
teoria que diz que alguns homens utilizam a hostilidade e a violência
contra os homossexuais para se sentirem mais seguros com a sua
sexualidade. Mas os psicólogos dizem agora que a maior porção da
discriminação contra os homossexuais surge de uma combinação
composta por medo e moralismo, na qual os homossexuais são tidos como
ameaças para o universo moral.
Tais atitudes são apoiadas, dizem os
investigadores, pelo facto de, ao contrário de qualquer outra minoria,
os homossexuais ainda serem alvo de discriminação institucionalizada.
São impedidos de fazer serviço militar e em muitos estados
[americanos] há leis contra a sodomia que tornam as suas actividades
sexuais ilegais. Até 1980, o "Manual de Diagnóstico Psiquiátrico"
oficial listava a homossexualidade como um distúrbio mental.
“É muito duro o facto da nossa existência
ser de algum modo uma ameaça” diz Naomi Lichtenstein, uma assistente
social no Projecto Anti-Violência Gay e Lésbica de Nova Iorque, que dá
apoio e aconselhamento a vítimas de ataques.
Uma das descobertas mais perturbantes
por parte daqueles que tentam combater a discriminação anti-gay é os
dados que mostram que esta hostilidade é mais aceite por um largo número
de americanos do que a discriminação contra outros grupos. Em resposta
a vários inquéritos cerca de ¾ dos homossexuais dizem que foram
verbalmente abusados e 1 em cada 4 diz que foi fisicamente atacado.
“Violência anti-gay ainda é aceite,
porque os líderes [políticos] falam contra a discriminação racial e
religiosa, mas ignoram a violência contra os gays e as lésbicas”
afirma Matt Foreman, o director executivo do Projecto Anti-Violência
Gay e Lésbica de Nova Iorque.
Um estudo de 1988 feito pela Task
Force contra a Violência por Discriminação do Governador de Nova
Iorque concluiu que de todos os grupos “as hostilidades mais severas são
direccionadas contra as lésbicas e os homens homossexuais”.
“Numa das descobertas mais
alarmantes” o relatório mostra que enquanto os adolescentes
inquiridos advogavam com relutância a favor da discriminação aberta
contra grupos raciais e étnicos, eles eram enfáticos na sua não
simpatia por homens e mulheres homossexuais.
Eles são vistos “como alvos legítimos
que podem ser atacados abertamente" diz o relatório.
Num inquérito a 2823 estudantes do 8º
ao 12º ano, ¾ dos rapazes e metade das raparigas disseram que seria
mau ter um vizinho homossexual.
Os sentimentos eram tão fortes para um
adolescente de 12 anos como para um de 17 anos. Muitos estudantes
acrescentaram comentários maliciosos e gratuitos sobre os homossexuais;
o mesmo não aconteceu com outros grupos.
Os cientistas que estudam as atitudes
em relação aos homossexuais dizem que o maior grupo de pessoas que são
contra os homossexuais são aquelas para a qual eles “representam o
sinónimo do mal”, disse o Dr. Gregory Herek, um psicólogo na
Universidade da Califórnia em Davis.
“Essas pessoas acham que odiar homens
homossexuais e lésbicas é o teste último que prova serem uma pessoa
moral”, diz Dr. Herek, que fez uma investigação extensa sobre as
atitudes em relação aos homossexuais. Frequentemente agem por aderência
a uma ortodoxia religiosa de denominações que consideram a
homossexualidade um pecado.
Dr. Herek não acha que a SIDA fez
aumentar os sentimentos anti-gay, mas sim ofereceu “um gancho
conveniente onde eles podem pendurar os seus preconceitos pré-existentes”.
A sua investigação mostra que a
afirmação dos valores de um indivíduo através do sentimento anti-gay
é o motivo mais comum [para a homofobia]. Por exemplo, num estudo sobre
as atitudes em relação aos homossexuais num colégio de 248
estudantes, Dr. Herek descobriu que esta era a fonte da hostilidade para
mais de metade daqueles que defendiam a discriminação contra os
homossexuais.
Bob Altemeyer, um psicólogo da
Universidade de Manitoba que desenvolveu uma escala para medir as
atitudes em relação aos homossexuais, descobriu que aqueles que
demonstram uma hostilidade mais intensa têm um medo extremo que o mundo
seja um lugar inseguro e que a sociedade esteja em perigo, assim como um
moralismo que os leva a julgar aqueles que têm valores diferentes como
moralmente inferiores.
“Eles veem a homossexualidade como um
sinal de que a sociedade está a desintegrar-se e como uma ameaça ao
seu sentido de moralidade” diz Dr. Altemeyer. “O seu moralismo fá-los
sentir que estão a agir moralmente quando atacam os homossexuais. Fá-los
superar as inibições que normalmente teriam em relação à agressão
[contra outras pessoas]
A Religião torna a mudança difícil.
Dr. Altemeyer diz aos seus estudantes que é gay. "Para a maioria,
ao longo do ano, isto torna as suas atitudes em relação aos
homossexuais mais positivas", diz ele. "Mas se a sua
hostilidade contra os homossexuais é baseada na religião, a sua forma
de ver as coisas torna-se mais difícil de mudar".
"Uma vez que uma pessoa tem um
preconceito contra os homossexuais, torna-se difícil alterá-lo, mesmo
quando a realidade contradiz esse mesmo preconceito". Deste modo,
os estereótipos dos homens homossexuais como femininos e as lésbicas
como masculinas persiste na cabeça das pessoas, embora a maioria dos
homens e mulheres homossexuais não sejam, de facto, assim.
Num artigo a ser publicado no fim deste
ano no livro Homosexuality: Social, Psychological, and Biological
Issues (Sage Publishers), Dr. Herek revê a questão de que falamos:
a tenacidade da crença que os homossexuais não devem ser professores,
porque podem molestar sexualmente as crianças.
Citando estudos que mostram que os
molestadores de crianças são, numa maioria esmagadora, heterossexuais,
ou que simplesmente têm uma fixação em crianças, e não são
homossexuais, Dr. Herek chama a atenção para que, apesar deste factos,
muita gente continua a acreditar que os homens homossexuais são
molestadores de crianças.
"Assim que os pais sentem que
existe uma ameaça contra os seus filhos, as suas emoções levam-nos a
ter a tendência para fazer raciocínios simplistas. É este tipo de
"emocionalidade" que torna os estereótipos anti-gay tão difíceis
de mudar", diz Dr. Herek.
Num estudo clássico sobre os estereótipos,
Mark Snyder, um psicólogo na Universidade de Minnesota ofereceu às
pessoas a descrição da história da vida de uma mulher chamada "Betty
K". Depois de ler a história, a algumas pessoas foi dito que a
Betty mais tarde teve uma relação lésbica e vivia com a sua
companheira. A outras pessoas foi dito que a Betty se casou com um
homem.
"Fez uma diferença dramática no
modo como as pessoas se lembravam e interpretavam a vida dela",
disse Dr. Snyder. Embora não houvesse nada de negativo no que as
pessoas se lembravam, Dr. Snyder descobriu que as pessoas seleccionaram
factos que apoiavam os estereótipos sobre as lésbicas e que ignoraram
aqueles factos que poderiam contradizer esses estereótipos. Esta tendência
normal pode resultar em preconceito e discriminação, disse ele.
Atitudes Negativas como um Bola de Neve
"Se a tua atitude for negativa,
ela cresce como uma bola de neve e só reparas e te
lembras de factos que são negativos, até que ela se transforma em
preconceito total", diz Dr.
Snyder. "E a tendência é para assumires que toda gente sente o
mesmo que tu. Quanto mais convencido disto ficas, maior é a
probabilidade de dares o próximo passo e pôr as tuas crenças em acção
através de discriminação ou violência descarada, quer seja contra
pessoas de outra raça ou contra homossexuais".
Defensividade em relação à sua própria
sexualidade é outra fonte comum de hostilidade das pessoas contra os
homossexuais. Na investigação de Dr. Herek, por exemplo, este era o
segundo maior motivo, perfazendo 40% daqueles que eram hostis contra os
homossexuais
Esta explicação para a homofobia é a
mais antiga, existindo desde pelo menos 1914, no ensaio de Sandor
Ferenczi, um dos primeiros seguidores de Freud, no qual ele propôs a
tese que os sentimentos de nojo em relação aos homens homossexuais por
parte dos homens heterossexuais são defensivos, uma reacção contra a
sua atracção semelhante por outros homens. Esta perspectiva tem origem
na teoria de Freud que diz que todas as pessoas começam por ser
bissexuais no início da infância e que reprimem a sua atração pelas
pessoas do mesmo sexo enquanto crescem.
"A homofobia tem muito a ver com a
percepção estereotipada dos gays como femininos: o mais feminino um
homem homossexual se parece, maior é a hostilidade que ele evoca
noutros homens", diz Dr. Richard Isay, um psiquiatra na Cornell
Medical College e o autor do livro Being Homosexual.
Dra. Peggy Hanley-Hackenbruck, uma psiquiatra nos Serviços de Saúde da
Universidade de Oregon e Presidente da Associação de Psiquiatras Gays
e Lésbicas, disse que "em mulheres heterossexuais inseguras, uma lésbica
pode criar medos por causa dos seus próprio sentimentos homossexuais
latentes e, como consequência, provocar hostilidade".
Dr. Isay disse também que "ver um
homem feminino origina uma quantidade tremenda de ansiedade em muitos
homens; despoleta a consciencialização das suas próprias qualidades
femininas, tais como a passividade e a sensibilidade, que eles veem como
um sinal de fraqueza. As mulheres, evidentemente, não têm medo desta
feminilidade. Esta é a razão em parte pela qual os homens são mais
homofóbicos que as mulheres e pela qual o preconceito e a discriminação
são tão fortes em grupos nos quais os homens são seleccionados pelas
suas qualidades masculinas, tais como a tropa e o desporto.
Outro psico-analistas veem a expressão
de preconceito contra os homossexuais por homens como um modo de se
sentirem mais seguros e de afirmarem-se como não homossexuais.
"Ao odiar os homossexuais, eles
podem reafirmar a si próprios que não são gay," especialmente se
tiverem dúvidas quanto à sua própria orientação sexual, diz Dr.
Jennifer Jones, uma psicóloga no Programa de Investigação da
Sexualidade na Universidade Pública de Nova Iorque em Albany.
Ambos os factores podem jogar entre si. "Em grupos de rapazes
adolescentes que saiem à procura de gays para atacar, o homossexual
simboliza o "de fora", diz Dr. Herek. "O ataque
solidifica o estatuto de membro do atacante no seu grupo e afirma os
seus valores comuns. Mas também é crucial que é a sua sexualidade que
define o homossexual como o "de fora". Quando se sente
inseguro quanto à sua sexualidade, tal como tantos adolescentes se
sentem, pode-se apaziguar essa insegurança ao atacar os
homossexuais".
Uma quantificação exacta deste tipo
de violência contra os gays é difícil de fazer, visto que muitas das
vítimas mostram-se relutantes em contactar a Polícia. Mas houve 3
vezes mais ataques contra gays denunciados à Unidade de Crimes por
Discriminação do Departamento da Polícia de Nova Iorque na primeira
metade de 1990 em relação ao mesmo período no ano anterior.
Em 1989 mais de 7000 incidentes de violência
ou abuso contra gays e lésbicas foram denunciados nos Estados Unidos,
incluíndo 62 assassinatos motivados pela homofobia, de acordo com um
relatório publicado no mês passado pela Task Force Nacional Gay
e Lésbica. Os números através dos anos 80 mostram um aumento estável,
com um pico em 1988 e uma permanência desse nível em 1989.
Enquanto a maioria dos ataques raciais
são questões de território em que as pessoas são atacadas quando
entram na vizinhança de outro grupo, o mesmo não se passa com os
homossexuais. Aqueles que atacam os homossexuais viajam mais
frequentemente para uma zona onde os homossexuais costumam estar, para
atacá-los, diz Lichtenstein. O padrão de ataque mais frequente,
segundo ela, é contra um homem sozinho ou dois homens caminhando
juntos.
Tal como noutros crimes por preconceito, os atacantes mais frequentes são
homens jovens de 21 anos ou menos que agem em grupos, de acordo com um
estudo de 331 incidentes, a ser publicado num artigo de Kevin T. Berrill,
director do Projecto Anti-Violência da Task Force Nacional de
Gays e Lésbicas, na edição de Setembro do Journal of Interpersonal
Violence.
"Este ataques têm a intenção de
nos conduzir de novo para a invisibilidade e a isolação do 'armário'",
diz Berrill.
"Assumir-se é uma das estratégias mais poderosas para atacar o
preconceito anti-gay", diz Dr. Herek. Esta abordagem é
particularmente eficiente naqueles em que as atitudes anti-gay são
baseadas em estereótipos negativos que nunca foram desafiados antes
através da socialização com alguém que é homossexual.
Paradoxalmente, esta abordagem pode também levar a um aumento de
incidentes anti-gay, dizem líderes do movimento gay.
"Embora os dados possam sugerir
que a intolerância está a ganhar terreno, eu acredito que a verdade é
o oposto", diz Berrill. "Acho que nos próximos anos, as
pessoas lésbicas e gay vão ter a experiência de tanto um aumento da
aceitação como da violência".
*Traduzido de "Studies
Discover Clues to the Roots of Homophobia" by Daniel Goleman, New
York Times, July 10, 1990