Cultura,
Sub-cultura ou Nenhuma?
© Rita Silva, 2000
Vemos, com frequência,
nas celebrações e manifestações gays e lésbicas, por entre as
pessoas "comuns", extravagância, travestis, homens vestidos
de cabedal, mulheres em motas de grande cilindrada e uma imagem que
parece dar uma excessiva importância ao sexo.
Este é um assunto antigo
dentro do movimento gay e lésbico e é uma das razões pela qual muitos
homossexuais se recusam a aderir ao movimento. Porque sabem que aquela
é a imagem que o resto da sociedade vai reter como representativa de
todos os homossexuais e porque não só sentem que não se enquadram
nesta imagem, como sabem que esta não representa a realidade. E,
inadvertidamente, cria-se deste modo mais um obstáculo à
visibilidade real dos homossexuais.
Mas será que é possível uma mudança? Muitas pessoas tiveram a
oportunidade de reparar no que aconteceu este ano na "Marcha do Milénio",
em Washington, EUA. Nesta marcha viu-se, na sua maioria, gays, lésbicas
e bissexuais cuja aspecto mostrava que eram pouco ou nada diferentes das
pessoas com quem lidamos no dia-a-dia. Porém, surpreendentemente,
surgiu publicada uma crítica que dizia que nesta marcha a organização
tinha tentado voluntariamente evitar todas as possíveis manifestações
"extravagantes" e "carnavalescas".
Contudo, o oposto pode ser
dito noutras ocasiões: ao longo dos anos, notamos que os gostos e
vontades de um determinado grupo prevalecem em relação aos de outros
dentro do movimento homossexual. E um número expressivo de homossexuais
têm dito: "Eu não sou assim. Eu não me revejo nestas manifestações
e elas não têm nada a ver com a minha identidade".
No entanto, quando dizem a alguém "Eu sou homossexual" o que
acontece é que os ouvintes frequentemente lembram-se das manifestações
daquele outro grupo e associam-nas automaticamente ao enunciador da
frase. E é exactamente isto o que se passa: ligada aos sentimentos que
um indivíduo tem por alguém do mesmo sexo - algo tão simples - toda
uma prática cultural e consequente imagem surgiu. Uma prática cultural
de um grupo que pertence ao grupo de seres humanos que são
homossexuais. E, infelizmente, muitas pessoas acabam por confundir a prática
cultural de um grupo específico dentro dos homossexuais com algo que
está simplesmente relacionado com a nossa natureza: amor, afectividade,
sexualidade. Não temos todos maneiras diferentes de os expressar? Quer
sejamos heterossexuais, bissexuais ou homossexuais?
É errado definir uma
"cultura homossexual", fora e para além da situação de
discriminação e opressão. Uma definição cultural comum só pode
derivar disso. É o único facto que todos os homossexuais têm em
comum. Logo, qualquer outra tentativa de definição só pode definir
grupos distintos entre os homossexuais.
Para além disto, tal como
na situação da mulher em relação ao sistema patriarcal, este é um
dos poucos casos em que a prática cultural de um grupo que não é, na
realidade, a maioria suprime outra(s) e impõe-se como standard.
Ou melhor, será mais correcto dizer que, ao contrário da sociedade
patriarcal, este não é um caso de uma prática cultural que se impõe
e domina outras, prevalecendo como padrão, mas um caso de uma cultura
que prevalece como "parecendo ser o padrão".
Muitos, neste momento,
responderão que se é tudo uma questão de "aparências", é
mais fácil resolver o problema. Não é preciso mudar a prática
cultural, mas o que as pessoas pensam que é a posição daquela em relação
a todos os homossexuais. Contudo, torna-se difícil quando a maioria dos
Orgãos da Comunição Social têm a tendência para mostrá-la como
"suposta prática padrão", só porque sabem que assim irão
atraír maiores audiências e atingir maiores vendas. Assim como é difícil
contrariar essa "aparência" quando a tendência em muitas
pessoas, quase sempre auxiliadas pelo seus preconceitos e desejo de
alimentá-los ao máximo, é para usarem essa imagem para catalogar e
definir todos os homossexuais, embora vejam frequentemente que não
corresponde a um grande número dos homossexuais.
Por outro lado, se nós
sabemos que a prática cultural em questão é geralmente falsamente
apresentada como padrão, também podemos especular algo pouco provável,
mas possível: vamos supor que numa marcha do orgulho - há sempre essa
possibilidade - o chamado "padrão falso" sobrepõe-se
numericamente a qualquer outro grupo de pessoas e acaba por realmente
ser o padrão, nesse espaço e tempo específico. Será que neste caso
seria aplicada a mesma regra e o grupo minoritário nesta hipotética
marcha passaria a ser o único centro das atenções? O que poderia
fazer quem não pertencesse ao standard da marcha, caso isso não
acontecesse? Reunir o maior número de pessoas que lhe é marginal e
dizer aos média e às pessoas: "Olhem! Olhem! Nós estamos aqui! Nós
também existimos! Vejam como nós somos diferentes!"? E ajudá-los
a ver que os homossexuais têm uma situação cultural de opressão
comum, mas não têm realmente uma prática cultural comum? Ajudá-los a
compreender como a prática cultural desse grupo homossexual particular
deve ser vista como uma sub-cultura da cultura homossexual - isto é, se
considerarmos que existe uma "cultura homossexual" - ou
talvez, por exemplo, da cultura ocidental? Que não representa todos os
gays, lésbicas e bissexuais, dos mesmo modo que as feministas radicais
não representam o ponto de vista de todas as mulheres?
Na verdade, encontramos um
número significativo de homossexuais que pertencem a muitas outras
culturas e sub-culturas e que sentem que são estas realmente a fonte
para sua identidade. São gays, lésbicas e bissexuais que não têm
qualquer tipo de ligação com aquela sub-cultura gay que é erradamente
associada a todos os homossexuais.