Argumentos
Religiosos contra a Homossexualidade?
Por Prof. Dr.
Daniel Helminiak
Nenhum argumento
religioso contra a homossexualidade sobrevive a uma análise crítica.
Qualquer motivo religioso padrão não é mais do que ficção, fruto de
convicções cegas. O "argumento" é somente uma preferência
pessoal, uma posição apoiada por uma "escolha" e não por
"argumentos racionais". A Religião é, assim, uma máscara
usada para encobrir o preconceito.
A Bíblia NÃO
condena a homossexualidade
As investigações científicas mais recentes demonstraram e denunciaram
erros de tradução e de interpretação nas passagens que dizem
respeito à homossexualidade. A maioria define claramente, como por
exemplo em Ezequiel 16, 48-49 e no Livro da Sabedoria 9, 13-14, qual foi
o pecado de Sodoma (Génesis 19): orgulho, ódio, abuso, dureza de coração.
Sexo nunca é mencionado. Também o termo "não natural", por
exemplo, que encontramos na Carta aos Romanos 1, 28-29 devia ter sido
traduzido pelos termos "atípico" ou "não
convencional". A Bíblia, se lida em coerência com os seus próprios
termos e contexto, não apresenta nenhuma condenação explícita dos
actos homossexuais. Ver D. A. Helminiak, What the Bible Really Says
About Homossexuality, Alamo Press, 1994.
O Cristianismo NÃO
se opôs sempre à homossexualidade
Até cerca de 1200,
excepto no período por volta da altura da queda do Império Romano, a
homossexualidade era, em geral, aceite na Europa cristã. No século VII,
na Espanha Visigoda, uma série de seis conselhos nacionais da Igreja
recusaram-se a apoiar a legislação do soberano contra actos
homossexuais. No século IX códigos penais extensos por toda a Europa
tratavam de questões sexuais detalhadamente, mas nenhum fora de Espanha
proibía actos homossexuais. Pela altura da Alta Idade Média existia
uma sub-cultura gay emergente e um corpo de literatura gay padrão
estudada nas Universidades dirigidas pela Igreja. Ver J. Boswell em Christianity,
Social Tolerance and Homosexuality, University Chigago Press, 1980.
Na prática da
Igreja, procriação NÃO é essencial para ter relações
sexuais
A filosofia estóica
defendia que a concepção de bebés era a única razão eticamente
aceitável para ter relações sexuais. O Cristianismo desde cedo
incorporou esta noção na sua doutrina e algumas igrejas invocam-na
para condenar a homossexualidade. Contudo, muitas destas igrejas
permitem o uso de contraceptivos e permitem o casamento (e relações
sexuais) entre casais que sabem serem estéreis ou entre casais que já
ultrapassaram a idade para procriar. Até mesmo a Igreja Católica
enfatizou recentemente a importância da união emocional e da partilha
do amor como centrais para a intimidade sexual. Evidentemente, as
igrejas não acreditam que a única e principal razão para a intimidade
sexual é a procriação.
O argumento da
"complementaridade" NÃO é coerente
Supostamente a
complementaridade dos sexos é um requisição estabelecida por Deus
para os relacionamentos sexuais. Mas a "masculinidade" e
"feminilidade" são estereótipos. Na realidade, as características
da personalidade das pessoas são mistas e abrangem tanto a esfera do
masculino e como a esfera do feminino. Quaisquer duas pessoas,
heterossexuais ou homossexuais, podem facilmente qualificar-se como
complementares nalgumas características psicológicas, ou noutras.
Deste modo, a complementaridade em questão só pode ser biológica.
Ora, apelar à complementaridade é só uma maneira de dizer que só uma
mulher e um homem podem partilhar a intimidade sexual. Logo, o
verdadeiro argumento é este: as relações sexuais homossexuais são
erradas porque sexo entre um homem e uma mulher é que está certo;
casais homossexuais não podem partilhar nenhuma intimidade sexual
porque não são heterossexuais. O argumento não explica nada, é
circular, a verdadeira questão fica por responder. Indo um pouco mais
longe, o argumento da complementaridade afirma que o único acto sexual
permissível é a relação sexual entre pénis e vagina, mas não
apresenta nenhuma razão para esta afirmação (na qual poucos
acreditam, de qualquer modo).
A homossexualidade NÃO
é uma doença
A Religião afirma que
a homossexualidade é uma aberração em relação à ordem da criação
de Deus. Contudo, a maioria das investigações científicas - zoológica,
médica, psicológica, sociológica e antropológica - mostram que a
homossexualidade é uma variante normal. Não só é prevalente em
muitas espécies animais, como nos humanos a homossexualidade tem uma
base biológica, é fixada no início da infância e presente em
praticamente todas as culturas conhecidas. Não há nenhuma prova credível
de que a orientação sexual pode - ou deve - ser modificada. A não ser
que ser simplesmente homossexual em si venha a ser considerado como uma
patologia com que se nasce, a ciência actual não é capaz de detectar
nada de "doente" na homossexualidade e considera-a parte do
mundo que Deus criou.
Os homossexuais NÃO
são irreligiosos
Muitas pessoas condenam
os homossexuais afirmando que são contra Deus e pecadores, mas os
homossexuais cristãos contemporâneos reconhecem a sua auto-aceitação
como fruto da graça de Deus. Eles testemunham que desde que "se
assumiram" sentem-se mais felizes, mais saudáveis, mais
produtivos, mais afectuosos, mais em paz, mais alegres e mais próximos
das outras pessoas - e mais próximos de Deus. De acordo com o critério
de Jesus "Pelos seus frutos os reconhecerás" (Mateus 7, 16)
os homossexuais cristãos devem ser verdadeiros profetas do nosso tempo.
Pelo contrário, colocar a tónica nos piores elementos e exemplos da
comunidade homossexual - ou heterossexual - é uma maneira injusta de
avaliar a questão.
*Traduzido de "Religious Arguments
Against Homosexuality" in http://www.visionsofdaniel.com